Ponto de Reflexão
 
 

UMA HERANÇA IMPERDOÁVEL
Dezembro 2015

 

     
   
 
José Vaz e Silva
 

 

Como nota prévia, direi que não sou um daqueles grandes entusiastas deste novo governo do PS apoiado parlamentarmente pela esquerda, não, as minhas espectativas são muito baixas, por várias razões, circunstanciais umas, programáticas e estruturais outras. E mais, até fico incomodado com o entusiasmo quase eufórico e espectativas infundadas de muita gente com este novo governo, mas isso não significa que eu não sinta um certo alívio pelo fim do governo do Passos Coelho e que não tenha esperanças, que tenho, que o novo governo consiga reverter alguns aspectos da imperdoável herança que nos deixou o anterior governo da direita radical do Passos e do Portas.

Já muito foi dito e escrito e eu próprio o fiz sobre a governação da direita nos últimos quatro anos, mas agora com outro governo e o país (espera-se) numa nova fase, há que fazer balanço necessariamente breve e sucinto do legado que nos deixou esse governo radical liderado por Passos e Portas. Um legado que é uma herança imperdoável.

E o que há de mais imperdoável na herança que o governo da direita radical nos deixou nestes últimos quatro anos não é de ordem económico-financeira, como o défice das contas públicas, a divida pública ou o aumento dos impostos etc., embora tudo isto tenha grande importância, o que de mais perverso e imperdoável nos deixou como herança a governação da direita radical dos últimos quatro anos foi a alteração profunda do paradigma social, tornando hoje a sociedade portuguesa na mais classista desde o 25 de Abril de 1974.

É uma herança imperdoável a desvalorização do trabalho e a degradação da sua dignidade, principalmente para os menos qualificados, mas não só, que agora se sujeitam a trabalhos semiescravos, miseravelmente pagos e sem vínculos minimamente sérios, tendo ainda que agradecer submissamente a indignidade a que se sujeitam porque o novo paradigma do trabalho que a direita radical impôs aos portugueses diz demagogicamente que mais vale quase nada do que nada.

É uma herança imperdoável a transformação da sociedade solidaria numa sociedade assistencialista que distribui as migalhas reminiscentes dos que mais têm por aqueles que merecem segundo critérios classistas, ou seja, por aqueles que se humilham e agradecem submissamente as migalhes que lhe dão.

É uma herança imperdoável termos de volta a arrogância classista dos que muito têm sobre os que pouco ou nada possuem. Isso é visível no dia-a-dia em muitas áreas, mas é nas estradas por esse país fora onde mais isso é evidente, onde os condutores dos carros novos e de alta gama exibem a sua arrogância sobre todos os outros, principalmente sobre aqueles com carros modestos, e fazem-no como se tivessem direitos especiais de circulação, ou como se fossem os donos das estradas. Isto parece pouco e insignificante, mas a verdade é que representa o novo paradigma classista da sociedade de hoje que o governo da direita radical tanto fomentou.

É uma herança imperdoável serem agora os pobres ainda mais pobres, e pior do que isso, estarem muito mais desprotegidos e dependentes das vontades das classes de cima.

Mas o que é o mais imperdoável nestes quatro anos de governança da direita radical é terem imposto profundas mudanças de paradigma pela via da mentira e da mais aberrante manipulação dos factos. Aliás, as mentiras e a manipulação foram constantes nestes últimos quatro anos de governação da direita radical e atingiram o mais alto grau da indecência, como só os grandes crápulas alcançam. É claro que toda esta intrujice só teve o sucesso que teve porque contou com a promiscua e infame colaboração da maioria dos media servis.

Pelo que foi referido e pelo muito que faltou referir, o governo da direita radical que governou nos últimos quatro anos deixou-nos uma herança imperdoável. Por isso, é de primordial importância que o novo governo agora empossado, consiga ser um governo diferente e decente, que consiga angariar confiança da maioria da população, no fundo, que consiga ser muito melhor do que o anterior, apesar das dificuldades hercúleas que terá de enfrentar, que consiga implementar a reversão dos aspectos mais negros da herança que nos deixou a governação da direita radical. Se não o conseguir teremos de volta essa mesma direita radical no poder, mas desta vez com toda a arrogância que a caracteriza e que não deixará pedra sobre pedra da raiz social-democrata. Portugal será um Estado europeu, mas com um tecido socioeconómico similar a um qualquer Estado da América Latina (e já o somos em grande medida, graças à direita radical), com uma grande multidão de serventes submissos e mal pagos, muitos deles qualificados, ao dispor das elites nacionais e internacionais que gozarão os encantos deste rectângulo soalheiro à beira-mar plantado praticamente a custo zero.


José Vaz e Silva

 
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não é mais do que um bloco de apontamentos onde estão reunidos textos de carácter reflexivo − da minha autoria ou de outros − sobre o estado do mundo político, social, ambiental e artístico.

Portanto, quase tudo poderá caber neste espaço, exactamente como num bloco de apontamentos, embora neste caso, os ditos apontamentos poderão ser extensos e acompanhados por fotografia ou vídeo, que não terão, forçosamente, relação com os escritos.

José Vaz e Silva   


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